Por peitos e bundas na São Paulo Fashion Week

7 Comentários »

O sistema de endividamento das meninas que vêm tentar a sorte em São Paulo como modelos lembra muito o aliciamento que leva trabalhadores rurais a serem escravizados em fazendas e carvoarias do interior do país. No caso delas, os custos de transporte e hospedagem são bancados pelos contratadores das Agências, que depois descontam a dívida dos primeiros cachês que elas receberem. Há casos que as meninas não fazem sucesso e voltam para casa de mãos vazias.

Não estou igualando as condições das modelos de 15 anos a dos trabalhadores rurais escravos. Mas a comparação serve para mostrar que parte do mundo da moda descumpre claramente a legislação trabalhista ao adotar esses métodos. E com a anuência de uma sociedade que enxerga na mercantilização de suas crianças uma possibilidade de ascensão social.

Posto, abaixo, texto retirado do blog da jornalista, cientista política e ativista pelos direitos das mulheres Maíra Kubik Mano sobre o culto ao esqueletismo no mundo da moda, que serve a um propósito: fazer dinheiro.

Por peitos e bundas na São Paulo Fashion Week
(Uma blogueira feminista defendendo mais bunda e mais peito? Que ironia!)

Em tempos de discussões inflamadas sobre direitos humanos, não é só o autoritarismo da ditadura militar brasileira que deveria entrar em pauta. Exemplos de violação não faltam nos dias atuais: tráfico de seres humanos, trabalho escravo no campo, extermínios comandados pela PM do Rio de Janeiro e… – por que não? – a São Paulo Fashion Week.

Afinal, as modelos da edição 2010 estão absolutamente esqueléticas. Magras de doer. Só o osso, como se diz por aí.

Mas esse tempo já não tinha passado?

Bem, é verdade que há três ou quatro anos um movimento contra a anorexia e a bulimia ganhou as passarelas de todo o mundo e, de fato, conseguiu reverter essa tendência nada fashion de mulheres cadavéricas. Porém, segundo as agências, isso já é muito “last season”, démodé. De volta, então, ao cemitério!

Se havia alguma preocupação, tanto com a saúde física e psíquica das modelos, quanto com o ideal de beleza que os desfiles passavam para a sociedade, isso durou pouco. Antes, ouvia-se dizer que algumas grifes mantinham balanças nos bastidores e pesavam todos e todas um pouco antes dos holofotes, para evitar que pessoas magras demais entrassem na passarela. Hoje, porém, não há nem sinal disso. “Culpa da semana de moda de Paris”, dizem.

O resultado, já conhecemos: quem entra num manequim 36 é considerada muito “acima” da média. E, assim, ficamos sabendo que existem profissionais com um Índice de Massa Corpórea (IMC) semelhante ao de crianças de nove ou dez anos.

Sim, eu sei, a maioria delas mal saiu da infância. Pior ainda, pois além de não ter muita experiência para discernir o que é a importância do sucesso profissional versus a manutenção da saúde, estão em fase de crescimento, o que significa deveriam estar comendo ao invés de vomitando.

O editor de moda do jornal Folha de S. Paulo, Alcino Leite Neto publicou hoje, junto com a jornalista Vivian Whiteman, um artigo corajoso, denunciando a falsidade de opiniões em torno da questão: “uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional – indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro”. Faço minhas as palavras dele, que conclui o texto dizendo: “o filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são ‘as vítimas de um deus sem rosto’. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos”.

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  1. Ana Paula disse:

    Apoio total e irrestrito ao texto. É hipócrita, alienante e criminoso o que fazem.

  2. Rudi disse:

    É apenas mais um reflexo de nossa sociedade doente.

  3. [...] This post was mentioned on Twitter by Victor Hugo and Alexandre Anzilotti, Leonardo Sakamoto. Leonardo Sakamoto said: Indico o texto "Por peitos e bundas na São Paulo Fashion Week": http://is.gd/6Nu2i [...]

  4. É engraçado como a indústria da moda vende esqueletos e a TV vende mulheres frutas. São extremos do mesmo machismo e da mesma ignorância.

    tsavkko.blogspot.com

  5. Cristiane S Carvalho disse:

    Tenho uma filha de 6 anos e luto todos os dias pra não deixar enraizar-se em sua cabeça o padrão global de beleza e esse padrão aberração que são as passarelas. Vemos pessoas normais nas ruas e tento mostrar para ela a beleza dos diferentes tipos de mulheres e homens. Tanto que às vezes ela me pergunta: “Mãe, vc acha aquela pessoa bonita?” E eu respondo que sim, e explico o pq.
    O que existe de mais legal em nosso país é a incrível diferença de tipos físicos, somos gente de todas as cores e tamanhos e isso é positivo.
    É ridículo querer (e, infelizmente, conseguir) empurrar goela abaixo um único padrão de beleza e, com isso, fazer com que todos nos sintamos inferiores por não nos encaixarmos nele.

  6. Cícero Vicente disse:

    Obrigado por expor a realidade que a sociedade se recusa a olhar. Nós como cidadãos que fazemos parte dessa sociedade, devemos apoiar e reinvindicar nosso direito de escolha e não virar a cara como a um mendigo, ou uma criança de rua(trombadinha em potencial) que nos cruza o caminho.

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