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O Ficha Limpa vai funcionar no país da desigualdade?

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O candidato a vice-governador de São Paulo pelo Psol teve a candidatura impugnada por usar um veículo da Câmara de São Bernardo do Campo para apoiar a ocupação de um terreno quando era vereador do município em 2003. Ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por improbidade administrativa (acórdão número 395.977.5/3-00) tendo seus direitos políticos cassados por cinco anos.

O caso é polêmico. O partido diz que o veículo foi usado para demonstração de apoio do vereador à ocupação e que isso pode considerado uma ação do mandato. Não sou legalista, não faço parte de partido algum e, básico, defendo o cumprimento da Ficha Limpa. Mas desconfio de decisões do conservador (para dizer o mínimo) Tribunal de Justiça de São Paulo que tendem a trabalhar com dois pesos, duas medidas. E há um histórico sobre isso.

Maria Aparecida foi para a cadeia por ter furtado um xampu e um condicionador. Perdeu um olho enquanto estava presa. Sueli também foi condenada pelo roubo de dois pacotes de bolacha e um queijo minas. As duas situações ocorreram em São Paulo, que tem julgado com celeridade casos de reintegração de posse contra sem-terra e sem-teto, mas é moroso nos casos de desapropriação de terras griladas que deveriam retornar ao poder público. Ou mesmo em julgar dezenas de casos de políticos, fazendeiros e empresários graúdos que poderiam também se tornar inelegíveis pelo Ficha Limpa.

(Não creio que manter alguém na cadeia por conta de um xampu vai ajudar em sua reinserção social, o que mostra uma sanha mais punitiva do que educativa – além de todo o custo do processo ser bem maior do que o bem em questão. Mas a sanha punitiva normalmente tem alvo certo: a massa de sem-advogado, rotos e pobres, que ousaram contra a propriedade privada.)

No ano passado, o Supremo Tribunal Federal divulgou uma notícia de que quase 30% dos habeas corpus concedidos eram favor de pessoas de baixa renda. Dizia que da totalidade de habeas corpus que puderam ser conhecidos (quando o mérito do pedido é analisado) pelo Supremo Tribunal Federal em 2008, 34,7% tiveram o pedido concedido. Dúvida cruel: 58,4% da população tinha renda de até dois salários mínimos de acordo com o IBGE. Essa diferença aponta que tem mais gente rica com acesso à justiça do que os pobres. Ou que tem mais gente rica cometendo crimes e, por isso, precisando de mais habeas corpus do que os pobres.

Lendo o pedido do procurador regional eleitoral tive a impressão de ele estava cumprindo a lei, mas sem aquela convicção de cunho pessoal. Diferente de um caso como o de Paulo Maluf, que está na mesma situação. Aviso aos bairristas: tomei o TJ-SP de exemplo, mas há casos bizarros em outros lugares. Como o Maranhão e o clã Sarney.

O problema não é a aplicação da lei. Que ela seja feita. Mas a aplicação deve valer para todo mundo, caso contrário será uma lei injusta. Como tantas outras por aí.


Metalúrgicos, jornalistas e o poder da reivindicação

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Nós, jornalistas, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar.

Ou, às vezes, nem isso. Já vi colegas se culparem por terem sido demitidos sem justa causa no melhor estilo “perdoa-me por me traíres” de Nelson Rodrigues. “Deveria ter virado mais madrugadas na redação”, “deveria ter me oferecido para trabalhar em todos os finais de semana”, “não deveria ter corrigido o português ruim do meu chefe”…

Fazer protestos por melhores condições? Imagina! É coisa de caixa de banco, de operário sujo de graxa ou de condutor de trem que atrasam nossa vida e geram congestionamentos na cidade. Ou de inglês, francês e italiano que têm a vida ganha e mamam no Estado. Enquanto isso, quem tem consciência de que é um trabalhador e reivindica coletivamente, como muitos bancários, metalúrgicos e metroviários, tem mais chances de obter o que acha justo.

Quando vejo algumas coberturas jornalísticas mal feitas de protestos e greves fico pensando como pessoas que não conseguem se reconhecer como classe trabalhadora podem entender as reivindicações de trabalhadores. O fato é que não somos observadores externos e nem podemos ser. Somos parte desse tecido social, desempenhamos uma função, somos parte da engrenagem, gostemos ou não.

A vida de jornalista, deixando de lado o falso glamour, não é fácil. Ainda mais com o processo de precarização da profissão que é mais intenso para aqueles que são patrões de si mesmo, não por decisão própria, mas porque foram empurrados para isso.

É ano de eleições gerais, mas também de pleito entre jornalistas. Entre 27 a 29 de julho, está ocorrendo a votação para decidir quem ficará à frente da Federação Nacional dos Jornalistas pelos próximos três anos. Independentemente de quem ganhe, seria importante aproveitar o momento para participarmos mais dos debates sobre os desafios de nossa profissão. Pelo menos, estaremos quebrando a barreira do silêncio e abrindo o diálogo nas redações. E não apenas fazendo figa para que o dissídio seja maior neste ano como se ele caísse do céu.

Duvido que muitos jornalistas saibam que está rolando essa votação. E por pior que seja a divulgação do pleito, essa não é uma justificativa válida – principalmente para nós, que conseguimos obter informação quando queremos. Não é irônico que os profissionais que informam sobre e analisam a democracia diariamente não exerçam sua “cidadania profissional”?


Ponto eletrônico e o respeito pelo tempo trabalhado

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Toda vez que bater o ponto, o trabalhador terá de receber um comprovante impresso com o horário em que iniciou ou encerrou a sua jornada de trabalho. A mudança faz parte da regulamentação definida pelo governo federal para o ponto eletrônico, aquela maquininha que registra quando alguém entra e sai de mais um dia de trabalho, e está no cotidiano de milhares de empresas e de milhões de empregados.

Já tratei do assunto no ano passado, mas vale a lembrança pois, agora, o negócio passa a valer. Poucos sabem, mas podem estar sendo enganados na batida do cartão. Em muitos casos, tempo de trabalho tem sido comido pelo patrão, que regula a máquina para que ela registre menos do que o trabalhado. E, até agora, quem já tinha percebido isso não conseguia comprovar.

Nesta terça (27), foi publicada a instrução normativa que regula a fiscalização ponto eletrônico, prevista para começar no dia 26 de agosto. No início, haverá visitas com função pedagógica. Depois, multas. O auditor fiscal poderá verificar irregularidades no registro eletrônico como a ausência ou redução de intervalos de jornada, a realização de horas-extras além do permitido ou sem remuneração equivalente, a concessão de descanso semanal, entre outros.

Ao longo do tempo, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho receberam muitas denúncias relacionadas a fraudes nos sistemas de ponto eletrônico utilizados por grandes empresas como magazines varejistas e redes de supermercados. Denúncias formuladas por trabalhadores e sindicatos, que revelaram fraudes, em especial com a finalidade de reduzir as horas extras.

Foram encontrados programas de controle de ponto eletrônico que permitiam que o empregador, por meio de senhas, tivesse acesso posterior às marcações dos empregados e pudesse – inclusive – alterar horários de entrada e de saída, além dos intervalos para repouso e alimentação. Ou seja, depois que você bateu o cartão, alguém vai lá e diminui o seu tempo de trabalho. Outros sistemas propiciavam ao empregador configurar o sistema para a marcação de ponto somente em horários pré-determinados. Com isso, o empregado fica impedido de registrar o horário real de entrada e saída.

Verificou-se que alguns fabricantes desenvolviam sistemas que geravam batidas automáticas, mesmo sem que o ponto fosse batido. Esses sistemas faziam a marcação automática do horário com minutos a mais ou a menos (17h04 e 16h58, para jornadas que terminam às 17h, por exemplo), de forma aleatória, para parecer mais “real” e não configurar o chamado “ponto britânico”. Uma rede de supermercados confessou a um juiz no Rio Grande do Norte que alterava “para o bem” as marcações.

Várias faziam anúncios das “vantagens” sem nenhum constrangimento. Uma das fabricantes chegou a enumerar perguntas para demonstrar os benefícios do produto: “O funcionário pode contestar a marcação do ponto? Não, uma vez que o funcionário assinou o espelho do cartão não mais poderá contestar a validade de suas marcações”, prometia. “É possível alterar a marcação feita pelo funcionário? Sim, é possível. Existe uma função destinada ao administrador do ponto que através de uma senha faz as correções e abonos necessários em todas as marcações efetuadas por seus funcionários”. As informações são procedentes de uma extensa investigação realizada pelo pessoal aqui da Repórter Brasil no ano passado.

Outra destacava a marcação de ponto somente em horários pré-determinados como um ponto forte do seu produto e tinha até manual de como fazer as alterações. “Basta ter a senha de acesso para adicionar ou modificar horário e até excluir marcações”. Havia fabricantes que preferiam recorrer à questão das ações trabalhistas para chamar atenção no mercado. “Custa menos que uma ação trabalhista, geralmente movida pela falta de controle efetivo de seu funcionário. O sistema permite o desconto de horas extras de forma total ou parcial”, advertia a empresa, sem receio de punições.

Apesar da chiadeira de alguns empresários (reclamando que a implantação do sistema vai gerar custos e filas) é saudável toda a ação que vem no sentido de disciplinar e dar transparência às relações entre capital e trabalho.


Um tapinha em criança dói. E por muito tempo

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Pesquisa Datafolha divulgada hoje mostra que 74% dos homens e 69% das mulheres já apanharam dos pais e que 69% das mães e 44% dos pais admitiram ter batido nos seus filhos. Isso explica o fato de 54% dos entrevistados serem contra a lei proposta do governo federal que proíbe castigos físicos (socos, palmadas, beliscões, empurrões, chineladas, entre outros) em crianças. Hoje, o Estatuto da Criança e do Adolescente não especifica o que são maus tratos.

Sei que muitos pais que amam seus filhos e são zelosos por sua educação acreditam que uma palmada em determinadas circunstâncias extremas pode ter um efeito simbólico poderoso na educação de uma criança. Muitas vezes, fazendo reportagens sobre direitos da infância, ouvi um complemento explicativo para isso que se repetia como um mantra: “apanhei quando pequeno e isso me mostrou limites, ajudou a formar o caráter que tenho agora”.

A idéia é muito semelhante a “trabalhei quando criança e isso formou meu caráter, portanto sou a favor de criança ter que trabalhar para não ficar fazendo arruaça na rua”. Neste blog, como já disse anteriormente, boa parte dos comentários postados sobre trabalho infantil são maniqueístas: ou a criança tem que ser burro de carga ou vai assaltar nos semáforos – não existe a opção estudar-brincar-crescer. Até entendo que muita gente sinta que sua experiência de superação seja bonita o suficiente para ser copiada pelo seu filho. Mas será que eles não imaginam que o trabalho infantil não precisa ser hereditário? E se “o trabalho liberta”, a “palmada educa”. Não estou dizendo que um ato é igual ao outro, mas é interessante notar que ações envolvendo algum tipo de violência contra crianças tem em si a reprodução de modelos aprendidos.

Educar alguém não é fácil. Eu, por exemplo, conseguia ser uma peste quando criança – portanto agradeço enormemente aos meus pais pela educação que me deram. Mas o ser humano evolui, a sociedade evolui, não precisamos permanecer com aquelas velhas práticas simplesmente porque foram adotadas em nossa infância ou na infância de nossos pais. Romper a inércia é difícil, mas fundamental.

Uma amiga (uma das melhores mães que conheço) me contou que, pela primeira vez, deu umas palmadas leves em seu filho dia desses, pois havia esgotado o repertório para deixar claro que ele estava extrapolando. Para sua surpresa – e tristeza – foi chamada na escolinha porque o filho, que normalmente é calmo, começou a bater em seus colegas. Poderia citar casos de amigos de infância que apanharam muito e hoje são pessoas que não pensam duas vezes antes de ir para uma solução, digamos, mais robusta para os problemas. Mas isso significa que todo mundo que levou palmadas vai virar um serial killer de nível 21 na escala de maldade? Claro que não… xô simplismo!

Dependendo da circunstância e do ambiente em que a criança está inserida, há conseqüências sim para a sua formação, que podem ser inesperadas. No mínimo, fica a pergunta: qual o exemplo de respeito ao diálogo, à tolerância, ao entendimento e a soluções não-violentas estamos dando com o uso desses métodos? Será que realmente não havia outra saída ou não conhecíamos outra alternativa? O quanto estamos sendo os nossos pais e os pais deles e não nós mesmos nesse momento?

Bem, ninguém disse que educar alguém era fácil ou que a tarefa dará certo muitas vezes. Mas podemos optar por um caminho de paz ou de porrada. Este último pode ser até mais simples, mas o outro tende a ser mais alegre e saudável.

Por fim, o debate aponta que modelo de país queremos ter. A sistemática ausência do Estado e a mais sistemática ação de determinados grupos ditos liberais de reduzir a importância da ação estatal ajudou a espalhar cada vez mais aberrações do tipo “o Estado não deve regular nossa vida”. Quando, na verdade, leis que criminalizam a violência contra a criança estão criando regras para balizar mais liberdade e menos dor. Para muita gente, a discussão deveria sair do âmbito das políticas públicas (que existem exatamente para dar apoio a grupos fragilizados) e passar unicamente para o espaço privado. Pois o Estado tem que se preocupar com coisas mais importantes, como auxiliar o capitalismo brasileiro a se desenvolver serelepe. Por esse pensamento, leis que concederam direitos e que dependeram da ação do Estado, mesmo indo contra grupos numericamente relevantes ou economicamente poderosos, nunca teriam sido aprovadas.

Enfim, o debate não se encerra aqui, mas a lei será útil. Infelizmente, muitos de nós só se darão conta disso daqui a uma geração. Que os críticos dela tenham vida longa para ver de perto um mundo que acharam não ser possível criar.


Você votaria em alguém que defende o casamento gay?

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De Medellín, Colômbia – Está aberta a temporada de caça aos direitos do cidadão! Ou, em outras palavras, começou a campanha eleitoral.

Já estava resignado de que o Brasil não conhecerá mudanças no seu modelo de desenvolvimento nos próximos quatro anos tendo em vista o leque de opções de candidaturas com chances reais que temos em mãos. Ganhe quem ganhar, a busca pelo progresso custe a quem custar vai continuar sendo a tônica no país. Afinal de contas, nenhum dos candidatos topará comprar uma briga para tentar civilizar práticas do mercado e do agronegócio que, hoje, tornam a vida de um número não desprezível de povos e trabalhadores no campo um inferno. Pelo contrário, se seguirem a toada de hoje, vão fechar os olhos se isso gerar resultados econômicos no curto prazo. Laissez faire, laissez aller, laissez passer!

O liberalismo econômico não vem necessariamente acompanhado de um liberalismo comportamental. Se viesse, pelo menos seria um prêmio de consolação diante da barbárie do “salve-se quem puder”. Na prática, coloca-se abaixo qualquer regra que pode fazer com que a economia não vá tão rápido quanto possível (Abaixo o Código Florestal! Viva o celacanto que provoca maremoto!), mas se mantém todas as normas bizantinas de convivência. O dinheiro é livre, as pessoas, não.

Estou acompanhando, mesmo de longe, as entrevistas com os candidatos à presidência pela TV Brasil. Como gostaria que um(a) deles(as) tivesse a coragem de vir a público e defender, sem meias palavras, sem legalismos, sem se esconder atrás de rodeios linguísticos, que defende o direito das pessoas de serem elas mesmas e de poderem usufruir da liberdade de decidir a própria vida. Sobre o casamento gay, Serra disse que o Estado não tem que mexer nessa área, Dilma disse que apóia a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Mas nada de falarem de matrimônio legal, como na avançada Argentina aí do lado.

Esse é o problema de guiar uma campanha por pesquisas de opinião e não por um conjunto de propostas programáticas. Verifica-se qual a posição da maioria e ripa na chulipa. São feitas rodadas de discussão qualitativas para buscar as características do candidato ideal, semelhante àquelas dos consumidores que são chamados para discutir o iogurte, a TV de plasma ou a pasta de dente perfeitos. A diferença é que o que estão em jogo são cargos públicos e não a venda de um produto. Ou não. No meio do caminho, rifa-se a possibilidade das minorias terem seus direitos respeitados.

Em 2007, uma pesquisa Datafolha apontou que 55% dos brasileiros defendiam a adoção da pena de morte, 57% eram contra a eutanásia (o direito do paciente terminal de pôr fim à sua própria vida), 65% defendiam que a lei do aborto não fosse ampliada para além dos casos de estupro e risco para a mãe, 49% rejeitavam a união civil homossexual (ou seja, a maioria, uma vez que 42% eram a favor) e 52% eram contrários à adoção de filhos por casais do mesmo sexo. Junte a isso que a maioria da população defende a posse de armas de fogo (taí o resultado do plebiscito do desarmamento para não me deixar mentir), o apoio à redução da maioridade penal, à prisão perpétua, à manutenção do uso de drogas como delito e por aí vai

Também há três anos, uma pesquisa encomendada pela revista Veja à CNT/Sensus mostrou que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% aceitariam votar em um homossexual e 13% votariam em um candidato ateu.

Parece que, para ser candidato nesta eleição, é necessário se despir de qualquer opinião própria e desistir de ser si mesmo para seguir um gabarito a fim de que a maioria dos eleitores se reconheça nele e dê seu voto. Mas é isso o que se espera de um bom candidato, que seja alguém à minha imagem e semelhança e não uma liderança política que possa governar o país? Devo dar meu voto a alguém que pense exatamente como eu ou que possa levar o país a um novo patamar de civilidade e de qualidade de vida para todos? O que é democracia? Um governo totalitário da maioria ou um governo da maioria em que as minorias são respeitadas?

Um pouco de educação para a política e para a tolerância não faria mal a ninguém.

Em uma guerra, a verdade é a primeira vítima. A frase, que virou história e é citada ad nauseam em faculdades de jornalismo, foi dita originalmente pelo senador norte-americano Hiram Johnson em 1917. Ela serve, como uma luva, para a guerra pelo voto. Até porque não acredito que essas posições conservadoras dos candidatos prevaleçam. Teremos que esperar 2011 para saber se vão apoiar o direito ao aborto ou mesmo o casamento gay ou darão as costas para políticas de efetivação dos direitos humanos. O eleitor reclamará que foi enganado mas, no fundo, ele também foi cúmplice nesse teatro.


Colômbia, Venezuela, Farc e paramilitares

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De Medellín, Colômbia – O governo Uribe acusou, mais uma vez, o vizinho Chávez de proteger integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) em território venezuelano. Caracas nega e chamou seu embaixador de volta. Bogotá fez o mesmo.

A troca de farpas não é novidade. Enquanto Chavéz mantém sua revolução bolivariana (seguindo para onde, exatamente, ninguém sabe ao certo), Uribe se tornou a base de apoio dos Estados Unidos no subcontinente, recebendo recursos financeiros e militares sob a justificativa de combater o narcotráfico. A polêmica 4ª Frota Naval, reativada pelo governo norte-americano para o Atlântico Sul, deve estacionar parte do seu efetivo na costa caribenha da cidade de Barranquilha.

Oito anos de Bush Jr. tiveram alguns efeitos perenes por aqui. O combate ao tráfico de drogas deixou o discurso único usado para justificar a atuação militar, somando-se a ele o enfrentamento ao “terrorismo” (termo que teve seus significados originais distorcidos para ser usado como uma espécie de desculpa universal, usada no massacre de civis na Chechênia ou em prisões arbitrárias em Guantánamo). E, consequentemente, a quem apóia esse “terrorismo”, sejam opositores políticos internos ou outras nações.

Mas as informações sempre vêm incompletas para quem está do lado de fora, há mais atores nesse processo. Organizações da sociedade civil colombiana estimam mais de oito mil paramilitares, a maior parte de direita, atuando no país. E no que pese o governo Uribe ter feito acordos (aliás, muitos deles bizarros) para desmobilizar esses grupos, eles continuam agindo e cometendo atrocidades. Muitas vezes com a complacência de setores do Estado que os enxergam como um mal necessário contra as Farc.

A Colômbia já atacou posições das Farc em território equatoriano, matando um dos seus líderes, o que gerou protestos do vizinho. Que a fronteira entre a Venezuela e a Colômbia é extremamente permeável, poucos duvidas. Mas Chávez não é Rafael Correa, e o Equador não é a Venezuela. Portanto, uma ação nesse sentido no outro vizinho poderia ter consequências catastróficas.

Apesar de falcões dominarem a discussão, cresce por aqui a defesa de uma saída democrática para o conflito. Até porque, após anos de luta, não é possível dizer que há no horizonte visível de eventos uma derrota militar do governo central ou das Farc. A inserção do grupo na política do país, dando uma possibilidade real para que disputem e assumam o poder, da mesma forma que ocorreu com os movimentos armados de outros países, parece ser a solução mais viável.

Passo que o presidente eleito que toma posse no início de agosto, Juan Manuel Santos, terá que dar pois seu antecessor não foi capaz. E para ter sucesso com a empreitada, precisará mais do apoio político dos vizinhos (para garantir a estabilidade que um processo de paz precisa) do que do dinheiro e das armas do grande irmão do Norte.


PT e DEM trocam afagos no Acre

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Durante a inauguração da nova sede da Federação da Agricultura do Estado do Acre nesta segunda, Binho Marques (PT) e a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária, se deram tão bem que o governador está até pensando em abrir uma “fazendinha”.

Segundo a agência de notícias do governo, Marques afirmou, em seu discurso, que “nossas diferenças são como a diversidade da nossa floresta – e é nisso que está a nossa riqueza”. Bonito mas, ao mesmo tempo, simbólico. Pois não importa quão diverso fosse a natureza dos grupos políticos reunidos na inauguração, todos pareciam concordar na beleza do desenvolvimento feito na pata do boi – que nem sempre respeita o que vê pela frente, sejam camponeses, indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais além, é claro, do meio ambiente. Chico Mendes que o diga. Foi assassinado por causa disso.

A expansão da atividade pecuária é importante para o país, mas ela deve ocorrer dentro de regras para evitar que cause impactos irremediáveis ao meio e ao ser humano – regras como o Código Florestal, que a bancada ruralista quer mudar a fórceps no Congresso Nacional com a ajuda de aliados do governo, como Aldo Rebelo (PC do B-SP), relator do novo texto.

Políticos ruralistas, diante das acusações de aumento no desmatamento, costumam usar o discurso pronto que o país tem que escolher entre seguir as regras ambientais, e passar fome, ou desmatar – e garantir soberania alimentar. Como se houvesse apenas duas alternativas – maniqueísmo que convém à parte dos empresários que lucra fácil com a expansão agropecuária irregular.

Reproduzo, abaixo, algumas falas dos presentes, trazidas a público pelo sempre alerta jornalista Altino Machado em seu blog, que estava presente no evento. Segundo ele, Kátia Abreu (que até embargou a voz em seu discurso) foi muito aplaudida por fazendeiros e autoridades petistas ao defender abertamente a derrubada de florestas para a expansão pecuária:

Kátia Abreu: “Não se planta arroz em cima de árvores. Não se cria bois em cima de árvores. Infelizmente ou felizmente, as áreas precisam ser abertas para a produção de alimentos. Quem dera fôssemos capazes de produzir comida sem ter que desmatar uma área, sem ter que arrancar do chão nenhuma espécie de plantinha. Seria um milagre extraordinário. Infelizmente, nós não somos capazes ainda de descobrir uma tecnologia que evite a abertura de áreas.”

“Imaginem o que seria do verde se todo mundo gostasse do amarelo. Eu vejo as imagens da boiada do Acre correndo pelos pastos e eu sinto o meu coração estalar. Eu sinto o peito encher de orgulho e admiração pelo meu país, pelo que nós conseguimos com essa pecuária maravilhosa, construída pelo esforço único e exclusivamente dos pecuaristas do Brasil.”

Kátia Abreu sobre o amigo Aldo Rebelo: “Um símbolo porque ele não é da direita, ele não é conservador, ele não é fazendeiro. Portanto, as pessoas puderam enxergar de alguma forma honestidade, clareza, bom senso e isenção na matéria. Se fosse um de nós, produtores rurais, relatando essa matéria, não teríamos sucesso. Precisávamos de um símbolo da esquerda, não produtor, nacionalista de bom senso e de coragem para alterar o Código Florestal Brasileiro.”

Binho Marques: “Custei a entender a posição do deputado Aldo Rebelo, mas hoje eu descobri que o professor Raimundo, um dos primeiros comunistas do Acre, foi fundador da Federação. Os comunistas sempre tiveram uma quedinha pelos ruralistas. O Acre não é complicado, mas é complexo. Eu sinto que tudo isso é só o começo. Sinto que o Assuero vai investir cada vez mais no plantio de florestas e quem sabe eu vou abrir uma fazendinha. Muito agradecido. Aqui está tudo muito lindo e maravilhoso.”

Em tempo: Nada sobre uma regularização fundiária real, confiscando as terras irregulares; nada sobre a realização de uma reforma agrária e a garantia que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – as verdadeiras responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes. Nada sobre preservar os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país. Enfim, nada sobre mudar o modelo de desenvolvimento, o que inclui alterar o padrão de consumo, uma vez que nós do Sul Maravilha comemos e bebemos a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal, arrotando alegria.


Se o frio mata até boi, imagine como estão os índios no MS

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Mais de 2,7 mil bois morreram devido ao frio intenso no Mato Grosso do Sul na última semana, principalmente em áreas próximas à fronteira com o Paraguai. Bois magros e bezerros foram as principais vítimas das temperaturas perto de zero após experimentarem um calor de mais de 30 graus Celsius dias antes.

Pobres bois… Mas enquanto a morte do gado, que gerou prejuízos na casa dos milhões para os produtores do estado, ocupou manchetes, não vi o mesmo espaço ser dedicado à situação das populações indígenas ou trabalhadores rurais que acampam na beira da Estrada na espera pela terra. Um barraco de lona pode ser uma verdadeira geladeira nessas condições metereológicas.

Faço meu o questionamento de Egon Heck, do Conselho Indigenista Missionário: “Quando ligo a TV, vejo quase uma centena de gado que deixou de viver por hipotermia, ou seja, morreu de frio. No mesmo instante uma série de imagens começa me esquentar a mente. Como estarão os milhares de acampados embaixo da lona preta, índios e sem terra, por essas bandas de fronteira? Seu Farid, de Laranjeira Nhanderu, foi procurar uns pedaços de lenha molhada, difícil, pois jogados à beira da estrada estão proibidos de buscar lenha nas “propriedades”, fazendas da região. Talvez mal consigam aquecer o corpo, no meio do frio e da lama. Além do mais estão revoltados pela recente decisão do Tribunal Regional Federal, que negou o pedido de retornarem ao local donde foram expulsos. Lá ao menos estariam protegidos por árvores e teriam lenha para aquecer seus corpos. Uma outra pergunta me perturba.

Se nessa região, conforme afirmação do Kaiowá Anastácio, “um boi vale mais que uma criança e um pé de soja vale mais que um pé de cedro, e assim por diante”, certamente se bois morrem de frio, viram notícia, mas se algum índio, um indigente nas beiras de estrada ou calçadas da região, morrer de frio, será simplesmente uma morte, mas não uma notícia.”

Vale sempre lembrar que os guarani kaiowá do Mato Grosso do Sul enfrentam a pior situação entre os povos indígenas do Brasil, apresentando altos índices de suicídio e desnutrição infantil. O confinamento em pequenas parcelas de terra é uma das razões principais para a precária situação do povo, alijados de seus territórios tradicionais pela expansão do agronegócio. Sem alternativas, tornam-se alvos fáceis para os aliciadores de mão-de-obra e muitos acabaram como escravos em usinas de açúcar e álcool no Estado nos últimos anos.


O brasileiro fala a verdade sobre si mesmo?

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Esta semana, abordado na rua, respondi a uma pesquisa de opinião. Ao final, quando a entrevistadora questionou minha profissão, não gostou do que ouviu, fechou a cara, depois a prancheta, agradeceu amarelamente e escafedeu-se. Eu sei, dei mancada, devia ter dito antes quem eu era. Raramente jornalistas podem ser ouvidos nessas pesquisas. Sendo honesto, não sei bem o motivo, mas desconfio que seja porque há o medo de que manipulemos o resultado. Ou não sejamos um público consumidor confiável. Ou que saibamos como funciona uma entrevista e possamos jogar com o entrevistador. Sei lá.

Acumulo histórias ouvidas ou vividas em anos de estrada: a do escravo liberto que inventou mulher e filhos para ganhar empatia, a do chefe indígena ambientalista radical (que depois descobriu-se ser um grande vendedor de madeira ilegal), a do catador de material reciclável que narrou uma trajetória pessoal surrealista só para ajudar o pobre repórter iniciante que estava com uma pauta-pepino nas mãos. Como, muitas vezes, a velocidade na linha de produção da imprensa dificulta aos operários da notícia irem fundo nas biografias daqueles que entrevistam, o que fica é essa superficial conversa, muitas vezes construída sem o propósito de enganar. Apenas de tornar a vida mais interessante e palatável! É papel de um entrevistador profissional perceber isso, mas somos humanos e, portanto, erramos. Bastante.

Tenho a impressão que, com pesquisas de opinião, ocorre a mesma coisa. Muitos respondem o que é mais socialmente aceito ou politicamente mais correto. Mas, na hora “H”, optam pela saída mais confortável individualmente.

É hype defender o verde e o consumo consciente. Mas no momento sigiloso da caixa registradora, a sustentabilidade é defenestrada sem cerimônia. Poucos se aventuram no preconceito aberto contra os gays quando podem ser visto pela sociedade, mas no anonimato dos comentários em um blog na internet, a intolerância se esbalda e se espreguiça. Em todas as pesquisas de opinião sobre racismo, os entrevistados dizem que não têm preconceito por cor de pele, mas que os outros brasileiros sim.

Uns vão dizer que é medo, outros hiprocrisia. A verdade é que é mais fácil continuar enganando incautos mocinhos e mocinhas entrevistadores de prancheta na mão do que encarar a verdade sobre nós mesmos.


Por trás do cafezinho, tinha escravo passando frio

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Tá com frio?

Em alguns lugares mais ao Sul do Brasil, esta pergunta deve estar sendo respondida acompanhada de um belo bater de de-de-de-dentes, haja visto que Dona Natureza esqueceu a porta da sua geladeira aberta. Abandonar as cobertas e sair para trabalhar nesse ambiente hostil se tornou um sacrifício. Imagine então se você for literalmente obrigado a isso após passar uma noite exposto ao frio? É o que acontecia no município de Marechal Floriano, no Espírito Santo, em que 15 pessoas eram submetidas à condição análoga à de escravos em uma fazenda de café.

De acordo com Rodrigo Carvalho, auditor fiscal do trabalho, em depoimento concedido à repórter Bianca Pyl, da Repórter Brasil, os trabalhadores encontrados na fazenda Araponga, de Marcelo Krohling, estavam sem cobertores e sem assistência nenhuma por parte do empregador diante de um frio intenso. “Alguns trabalhadores tiveram que ser internados, diante da gravidade do estado de saúde”, explica. Além disso, eles utilizavam o mato como banheiro, consumiam a água do riacho (em um copo que era dividido pelo grupo) e, apesar do frio que fazia na região em que estavam, tomavam banho em um córrego. Por fim, segundo a fiscalização, só tinham uma refeição por dia (arroz e farinha). A libertação iniciou-se no final de junho e foi divulgada nesta semana.

Apesar de não ser um dos primeiros colocados no ranking do uso do trabalho escravo no campo (pecuária bovina, carvão vegetal, cana-de-açúcar têm sempre alcançado os primeiros lugares…), há incidência desse tipo de crime no setor. Levantamento da ONG Repórter Brasil aponta que 92 trabalhadores rurais foram libertados de cafezais no Espírito Santo nesta safra, que começou em abril.

Após fugirem e conseguirem retornar à Bahia, três trabalhadores procuraram a Comissão Pastoral da Terra para denunciar a situação em que foram submetidos no município de Jaguaré (ES), maior produtor de café conilon do Brasil. As denúncias motivaram uma série de fiscalizações em propriedades de café no estado nos últimos meses pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, pelo Ministério Público do Trabalho e pela Polícia Federal. As fazendas envolvidas, além da Araponga, foram a Jundiá, que pertence à Celso Brioschi, a Armani, de Laurindo Armani, e a Mundo Novo, de propriedade de Nelsinho Armani.

Os trabalhadores foram aliciados em Itabuna, Gandu e Teolândia, na Bahia, por um “gato”, contratador de mão-de-obra a serviço do fazendeiro. As vítimas já chegavam às fazendas devendo o dinheiro da passagem de ônibus. Os empregadores, segundo a fiscalização, utilizavam a servidão por dívida para impedir que os trabalhadores deixassem as fazendas antes do final da safra. Descontavam os valores referentes à alimentação e equipamentos de proteção dos salários e retinham as Carteiras de Trabalho. Após a ação dos fiscais, os fazendeiros pagaram os valores referentes às verbas rescisórias e custearam o retorno dos trabalhadores aos seus municípios de origem.

Lembrete: Sei que é difícil mas, quando for comprar café no mercado, exija saber se o produto foi feito obedecendo aos direitos fundamentais e se a empresa participa de algum compromisso público para que isso aconteça. Afinal, é uma parcela bem pequena dos produtores que usa de expedientes bizarros como esses. A atenção do consumidor ajuda a limar do mercado quem opera na ilegalidade – o que é ótimo para a imagem dos produtos brasileiros e melhor ainda para a qualidade de vida de nossos trabalhadores.

Nossa política de consumo é sempre uma boa reflexão a ser regada por um café que esquenta esses dias frios…